Estilo de Vida

Crônica | Numa certa Rua XV

16 de novembro de 2014

Faltavam ainda alguns minutos para às 17h quando alguma coisa me impediu de fechar a porta. Meus olhos percorreram cada canto da sala vazia com indisfarçável tristeza, pois sabia que aquilo era uma despedida. Para além da janela, visualizei a placidez indiferente das águas do rio Itajaí Açú, descendo tranqüilas, alheias aos sentimentos dos homens. Sob o sol resplandecente daquele dia gelado, ainda pude observar as capivaras, sempre modorrentas, às margens do rio. Pedaços de um mosaico, no coração da rua XV, de uma cidade qualquer desse nosso imenso país. Com os olhos marejados, cerrei a porta, não sem antes, claro, apagar a luz.

Saí do prédio e a rua XV fervilhava. Num café, logo adiante, seis senhores, idosos, conversavam animadamente sobre algo qualquer. Não pude deixar de perceber uma revista Playboy sobre a mesa, que se projetava sobre a calçada. Mas não era sobre isso que conversavam. Provavelmente falavam sobre a vida e riam, afinal, por que levá-la tão a sério? Senti uma ponta de inveja, pois me sentia sozinho naquele instante. À minha frente, caminhavam três moças lindas e muito bem vestidas. Ora, nem sei porque ainda me surpreendia, pois  todos se vestiam muito bem naquele lugar, tão familiar para mim. Tudo acontecia como sempre; fluía como sempre fluiu; menos o trânsito, caótico, porém, educado. Em cada rosto uma história e, ao menos aparentemente, só a minha triste, porque me despedia.

Sabe, tenho respeito por aqueles que não têm pátria, não têm família e não fincam raízes, só que não os compreendo. Conquistamos nosso espaço – e é tão pouco o que ocupamos – que é difícil desocupá-lo sem dor. Não falo apenas do físico, mas também daquele que ocupamos no coração de alguém, seja de um amigo, de um amor ou até de um animalzinho de estimação. Despedir-se, no meu modo de ver, é deixar para trás o que construímos e já são duras as despedidas voluntárias, imagina então as involuntárias. Sobre estas, porém, nem vou por ora considerar.

Na manhã seguinte, antes mesmo do sol despontar sobre o rio, cruzei a secular e imponente ponte de pedra, sob um forte nevoeiro que escondeu de mim um último olhar sobre a cidade que tanto amava. Quis o destino que fosse assim para talvez poupar-me de uma ou outra lágrima furtiva. Talvez a cidade, entristecida, também não me quisesse ver partir.

Sabe, despedidas são ruins, mas talvez necessárias. Pior é jamais construir e assim nada ter para se perder. Levar uma vida vazia e não ter pelo quê ou por quem chorar…

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