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Fashion icon | Zuzu Angel: “Eu sou a moda brasileira”

5 de junho de 2015

Quando se pensa em moda brasileira, não se pode deixar de pensar em Zuzu Angel, que se estivesse viva hoje, dia 05 de junho, completaria 94 anos, A vida da mineira que viveu numa época em que estilistas famosos só eram homens como Yves Saint Laurent e Dior, foi provar que a identidade brasileira jamais se perderia dentro da globalização cultural. Para isso, a costureira – ela não gostava de se rotular estilista – mostrou entre rendas cearenses e jogos de cores irresistíveis em estampas, o valor da moda brasileira.

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Quase como uma vidente, já na década de 60, acreditava, sem nacionalismo bobo, na invasão e no valor da moda nacional. Nesta época, ela conquistou as vitrines internacionais. No auge da Alta-Costura, não só criou modelos personalizados para artistas e para membros da alta sociedade como, – para a atriz Joan Crawford, Yolanda Costa e Silva, Helô Amado, Heloisa Lustosa, Kim Novak, Margot Fontaine e Liza Mineli – também, começou a elaborar modelos de vestidos repetidos, dando a idéia do que hoje conhecemos por pret-à-porter.

Sua roupa, como poesia pra se vestir, tinha características baseadas no tropicalismo brasileiro. Com estampas de chita, vestidos inspirados em Maria Bonita e Lampião, estampas de anjinhos sobrevoando as nuvens, xadrezes com padrões singelos de cores e formas, pássaros e florais com releituras naif. Tudo isso em vestidos, saias e blusas volumosas com modelagem bem simples como as “mulheres rendeiras” com características da zona rural brasileira.

Já nos anos 1970, outra façanha da estilista foi a criação de lingeries, camisolas, babydolls e a concepção de vestidos de noivas com bordados cearenses. As noivas, a qual a criadora mineira vestia como verdadeiras ninfas, podiam escolher aplicar em seus vestidos as aplicações de pedrarias preciosas brasileiras aos bordados à mão, ou ainda rendas do norte e rendões nordestinos tingidos à mão com seda.

Na atualidade, várias criadores já beberam e seguem bebendo da fonte criativa criada por Zuzu Angel e, a partir de dela, criam coleções tomadas por releituras das criações da costureira mineira que tinha por objetivo mostrar moda com a cultura brasileira na veia. Entre estes criativos, estão grandes e famosos designers como Ronaldo Fraga, Tufi Duek, Marciana e Maria Fernanda Lucena.

Uma luta: o filho, a ditadura

Na virada dos anos 60 para os anos 70, Stuart Jones, filho de Zuzu e então estudante de economia, passou a integrar as organizações que combatiam a ditadura militar no Brasil, instaurada em 1964. Preso em 1971, o estudante foi torturado e morto pelo Centro de Informações da Aeronáutica (CISA) no aeroporto do Galeão e dado como desaparecido pelas autoridades.

A partir daí Zuzu entraria em uma guerra contra o regime pela recuperação do corpo de seu filho, envolvendo os Estados Unidos, país de seu ex-marido e pai de Stuart. Como estilista, criou uma coleção estampada com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos. O anjo, ferido e amordaçado em suas estampas, tornou-se também o símbolo do filho.

Em setembro de 1971, montou um desfile-protesto no consulado do Brasil em Nova York, tecnicamente território brasileiro, pois uma lei da ditadura militar impedia que brasileiros criticassem o país no exterior. Fazendo o desfile no consulado – que foi pego de surpreso pelo tema – ela não podia ser acusada de criticar o país fora dele. Com este feito, Zuzu ganhou uma reportagem no New York Times escrita por Bernadine Morris. Foram anos em busca do corpo do filho, sem poder dar-lhe um enterro, pois o corpo de Stuart nunca foi encontrado e consta como desaparecido político brasileiro.

Morte

A busca de Zuzu pelas explicações, pelos culpados e pelo corpo do filho só terminou com sua morte, ocorrida na madrugada de 14 de abril de 1976, num acidente de carro na Estrada da Gávea, no Rio de Janeiro. O túnel, onde ocorreu o acidente, foi batizado com seu nome em sua homenagem. O carro dirigido por ela, derrapou na saída do túnel e saiu da pista, chocou-se contra a mureta de proteção, capotando e caindo na estrada abaixo, matando-a instantaneamente. Uma semana antes do acidente, Zuzu deixara na casa de Chico Buarque de Hollanda um documento que deveria ser publicado caso algo lhe acontecesse, em que escreveu:. “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.

No cinema

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O filme Zuzu Angel, dirigido por Sérgio Rezende, inspirado nos acontecimentos da vida da estilista Zuzu, foi lançado em 2006. A atriz Patrícia Pillar interpretou a estilista e, o ator Daniel Oliveira, seu filho Stuart. A produção do longa metragem foi de Joaquim Vaz de Carvalho, a produção executiva de Heloísa Rezende, a trilha sonora de Cristóvão Bastos, a direção de fotografia de Pedro Farkas, a direção de produção de Laís Chamma e Mílton Pimenta, a direção de arte de Marcos Flaksman, o figurino de Kika Lopes e a edição de Marcelo Moraes.

O legado: o Instituto Zuzu Angel

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O Instituto Zuzu Angel de Moda do Rio de Janeiro, uma entidade civil sem fins lucrativos, foi fundado em outubro de 1993 a partir da idealização da jornalista Hildegard Angel, filha da estilista que dá o nome à instituição.

A intenção primeira da organização é preservar a memória da estilista Zuzu Angel, sua obra e sua luta, através da difusão de suas realizações e reivindicações. Assim, pretende dar continuidade, através de ações diferenciadas, na área acadêmica, na promoção de concursos, congressos, distribuição de bolsas de estudos etc., à cruzada iniciada por Zuzu Angel por uma moda genuinamente brasileira, cultivando valores, raízes, materiais, artesania, mão de obra, expressando na cultura e na História do Brasil. Outro propósito do IZA, é prestigiar a memória da produção cultural brasileira, através da moda, preservando as raízes e resgatando a história.

A moda, como atividade econômica, é um dos setores líderes na geração de empregos no país e grande captadora de divisas para o País. Conquistar fronteiras, através do reconhecimento internacional dessa moda, é a reafirmação do orgulho de ser brasileiro. Uma frase emblemática de Zuzu Angel, serve de lema ao Instituto: “A moda brasileira só pode ser internacional se for legítima”.

Instituto Zuzu Angel – www.zuzuangel.com.br

Fotos: Divulgação e Reprodução/Instituto Zuzu Angel

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