Moda, SPFW

MODA | SPFW 44 CELEBRA A DIVERSIDADE, POR IRAN MARCON

4 de setembro de 2017

Nos últimos dias, acompanhamos a semana de moda paulista, que nesta edição tinha como principal objetivo, segundo a organização do evento, promover o resgate da autoestima do nosso país em meio ao cenário de crise. Por este motivo, o que se viu nas passarelas (e também nos looks usados pelo público nos corredores), foram propostas mais comerciais. Modelagens amplas, tecidos confortáveis e muito pé no chão revelados em um lifestyle descomplicado e atitude despojada, feitas sob medida para pessoas reais. Apesar disso, em algumas griffes, as propostas vieram repletas de sonho, romantismo e até mesmo, referências da arte conceitual. A força do feminino, enfatizada em muitas coleções, vem em boa hora trazendo luz para o debate e as pautas relativas a inclusão e respeito as mulheres.

Mas para quem acha que o senso de realidade que pairou nesses dias enterrou a criatividade e trouxe coleções óbvias, o que se viu foi justamente o contrário: as marcas trabalharam o desejo de inclusão e trouxeram multiplicidade de propostas para todas as idades, corpos e estilos. De forma criativa e leve, os desfiles vieram com uma vibe tropicalista e otimista. A sofisticação e a rusticidade, o streetwear e a delicadeza, as geometrias e as formas orgânicas convivendo em harmonia, numa mesma peça ou look, são exemplos dessa fusão das diferenças. A moda integrada a arte, onde a ideia dos contrários transforma-se em uma coisa só. Mais democrático, impossível. Vamos aos destaques:

Apartamento 03

A marca buscou inspiração na arquiteta Lota de Macedo Soares que viveu um romance com a escritora inglesa Elizabeth Bishop na década de 60 (o filme Flores Raras, estrelado por Glória Pires é ótimo e ajuda a entender um pouco da história). A paisagista, uma mulher forte e vanguardista, foi a responsável pelo projeto do Aterro do Flamengo e adorava vestir peças masculinas. A coleção leve e fluida, mas com imagem de moda impactante (uma das mais lindas desfiladas no evento), trouxe essa dualidade entre o masculino e o feminino, a rigidez e o despojamento, a delicadeza e a personalidade forte da homenageada.

Foto Zé Takahashi. FOTOSITE.

Ronaldo Fraga

O designer olha para o surgimento da moda praia na década de 1920. Até então, as pessoas frequentavam os balneários somente por prescrição médica e não com finalidade recreativa.  Com um dos casting mais democráticos desta edição (assim como o desfile da LAB do rapper Emicida), a coleção traz pessoas de várias idades, tons de pele, tipos de corpos (e até mesmo com pernas biônicas!), usando peças beachwear, na primeira incursão de Ronaldo por esse universo. As peças foram executadas com tecnologia supersônica (a mesma utilizada em trajes de competições olímpicas de natação). As peças da coleção não têm costuras, emendas, bordados ou estamparias manuais. A história da coleção, que foi batizada com o título “As praias desertas continuam esperando por nós dois”, foi contada de um jeito romantizado em bodies, macaquinhos e maiôs bem comportados, que foram desfilados ao ar livre e com a trilha executada por uma orquestra de sopros, tocando Pinxinguinha. Empolgante e emocionante, como só Ronaldo saberia fazer.

Foto Zé Takahashi. FOTOSITE.

Gloria Coelho

A estilista convocou amigas, clientes, cantoras, atrizes e blogueiras, que misturaram-se dentre as modelos, em mais um desfile com casting composto por mulheres reais. Camila Coelho, Aline Moraes, Isabela Forentino e Marina Lima, foram algumas das convidadas e fizeram bonito na passarela. A monarquia inglesa e a cultura do Reino Unido foram o ponto de partida, que unidos a estética street/punk, comuns nas criações da designer, mostraram uma moda que vai da praia à festa com muita personalidade. Os lindos e sofisticados vestidos atemporais que encerram a apresentação são o ponto alto do desfile. As geometrias e assimetrias, recortes, sobreposições e transparências dominaram os looks.

Foto Zé Takahashi. FOTOSITE.

Osklen

Tarsila do Amaral é o ponto de partida para uma das mais comerciais e lindas coleções da trajetória da marca nos últimos tempos. Mas nada soa clichê e nem óbvio, a começar pela forma como a coleção foi desfilada. Na primeira parte do desfile surgem peças minimalistas em off White, como uma tela em branco. Aos poucos, as peças vão ganhando detalhes e prints com esboços de quadros da artista em preto, para em seguida as cores começarem a aparecer. A parte final, explora as estampas e a explosão tropicalista dos quadros de Tarsila (peças belíssimas, que já nascem best seller e que certamente irão estourar de vender). Complementam riscas de giz (retiradas das roupas de Oswald de Andrade, melhor amigo da pintora) e geometrias modernistas nas modelagens. A coleção será desfilada em Fev/18, na abertura de uma exposição alusiva a obra da artista no MoMA, em Nova Iorque.

Foto Zé Takahashi. FOTOSITE.

OUTROS PONTOS ALTOS

A Reserva, com styling preciso de David Pollack e referências extraídas do universo dos mochileiros e viajantes e do cult “Onde está Wally?”, a Animale, inspirada numa viagem do estilista Vitorino Campos ao Vietnam e Paula Raia (falando sobre o sagrado feminino, numa espécie de jornada rumo ao próprio interior), trocaram seus desfiles por intervenções no estilo happening. Neste formato, os convidados têm contato mais próximo das coleções, podendo constatar os detalhes das  peças.  Poderá a estratégia ser adotada por um maior número de marcas?

Reserva. Foto Zé Takahasi. FOTOSITE

Paula Raia. Foto Zé Takahashi. FOTOSITE

Animale. Foto Zé Takahashi. FOTOSITE

A Coven inspirou-se na África e seus grafismos (e causou polêmica ao ter somente 4 modelos negras em seu casting), a moda praia da Agua de Coco viajou para Bali e suas verdes paisagens e a Tig, explorou o Rio de Janeiro. O tropicalismo, flora e cores encontrados em paisagens paradisíacas e destinos exóticos, são apostas seguras para o Verão 2018.

Coven. Foto: Zé Takahashi. FOTOSITE

Tig. Foto: Ze Takahashi. FOTOSITE

Agua de Coco. Foto: Zé Takahashi .FOTOSITE

RESUMÃO: PARA ADOTAR JÁ!

Qualquer peça listrada (preferencialmente em branco e vermelho).

Print tropical (paisagens paradisíacas, folhagens e orquídeas)

Geometrias, assimetrias, recortes e grafismos

Calças amplas e curtas, pantalonas ou clochard. (Alô, anos 80!)

T-shirts, moletons, moletinhos e itens oversize. (Very 2000. Quanto maior e volumosos, melhor)

Sobreposições e transparências com vestidos e saias longas bem esvoaçantes.

Rendas, babados, bordados, franjas e tules (delicados e românticos, até na moda praia).

Jeans em lavagens claríssimas e desgastadas

Cartela de cores Verão 2018: branco e preto (juntos ou em looks monocromáticos), Off White e nude, muitos vermelhos, amarelos e laranjas queimados, uma quantidade considerável de rosas e azuis claros, a gama de verdes (claro, folha e musgo, com a companhia de alguns tons de caqui e terrosos) e um pouco do marinho, roxo, violeta e lilás.

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