Gastronomia

GASTRONOMIA | O MOLHO PESTO E A HORTA, POR EUNICE SPINDLER

23 de Janeiro de 2018

Como você escolhe e onde compra  os ingredientes da sua comida? Quando eu encontro os temperos e chás que preciso no supermercado sempre me pergunto se foi usado algum defensivo no cultivo. Essa informação nunca consta nas embalagens. Quando encontro na pequena seção de orgânicos fico mais tranquila, mas não totalmente. A verdade é que essa questão me incomoda muito. O que não foi colhido na minha horta, não me dá 100% de certeza de que ali não tem nenhum veneno. Mas pior do que isso é não encontrar os ingredientes quando você esta determinado a preparar sua receita.

Nas minhas pesquisas sobre o azeite de oliva extra virgem, tenho encontrado todo tipo de abordagens e nuances sobre o cultivo das plantas, conservação dos alimentos e seu reflexo na nossa saúde. Encontrei um livro do ano de 1962 que trata do azeite de oliva como uma força milagrosa de cura. No início fiquei curiosa e empolgada, mas no decorrer da leitura percebi que o escritor enveredou para um lado fundamentalista, tão absolutamente radical que perdi o interesse pela obra.

Preconceitos nunca me atraíram e às vezes é difícil entender (eu nem quero mesmo) as crenças das pessoas. É como dizer que você não pode fazer um molho pesto sem pinoles. Cada um faz seu molho pesto com o que quiser. Eu não gosto de pinoles, então uso a noz macadâmia. Se não a encontro, compro castanha do Pará. Mas nada impede você de usar nozes pecam ou castanhas de caju. O gosto é seu e ninguém tem o direito de dizer se está certo ou errado. E isso é o mais fascinante na gastronomia: um toque seu pode transformar uma receita, criar uma nova identidade para um prato. Você pode até dar um nome diferente.

Noz macadâmia

E já que o assunto é o molho pesto, quem me conhece sabe que o verão não é a minha estação favorita, mas é no verão que eu colho o manjericão alfavaca para preparar o meu molho pesto. As mudas são plantadas lá em casa entre agosto e setembro e em janeiro os pés estão arbustivos, com quase um metro de altura, fartos de folhas e flores. Esse ano a produção rendeu muito. Não vai faltar molho pesto para os amigos e a família. A minha receita é simples e suave, uma vez que meu amigo Nicholas Treis Weissheimer gosta dele mais “potente” (ele usa suco de limão e pimenta)… Eu uso manjericão alfavaca, alho, noz macadâmia, queijo grana padano, sal e um ótimo azeite de oliva extra virgem. Jogo tudo no processador, envaso, esterilizo e guardo para o ano todo.

Manjericão alfavaca da minha horta

Certa vez, dei um vidro de molho pesto para meu ex-vizinho de praia, Mauricio Leie (hoje ele vive na Austrália). Como muitas pessoas, inclusive eu, ele gosta de assar pão com alho quando faz churrasco. Um dia Mauricio chegou lá em casa e disse que tinha trocado o alho do pão assado pelo molho pesto e que tinha ficado “sensacional” (meu genro Tessalo usa essa palavra para expressar a aprovação dele aos meus pratos).

Meu molho pesto envasado

Significado de sensacional (Dicio Dicionário Online de Português) – extraordinário, que não é comum; que é espetacular ou maravilhoso.

Você consegue imaginar alguma palavra mais gloriosa do que essa para definir uma comida sua? Bem, para mim é o elogio supremo, algo que realmente me enche de satisfação. Não raramente me emociona. Sempre ensinei com veemência às minhas filhas a arte de cozinhar com amor, respeito e cuidado. E graças à capacidade de cada uma, conseguem cozinhar tão bem quanto eu. Isso me enche de orgulho delas! Quero que as meninas tenham a mesma sensação que eu quando servirem suas receitas e ouvirem elogios. Isso tem o seu valor. Quem cozinha com amor sabe do que estou falando.

Ovelha com molho pesto – foto de Eduardo Riegel

Sobretudo, é a diversidade de receitas nas quais as pessoas usam o molho pesto que me impressiona. Tenho amigos que gostam nas massas, na carne de ovelha, brusquetas, como crosta no salmão, recheio de borda de pizza etc. Curiosamente, eu não gosto de molho pesto. O manjericão juntamente com o orégano e o alecrim (salvo na marinada da carne de ovelha e na focaccia) são temperos que o meu paladar nunca aceitou muito bem. Troco uma linguini ao molho pesto por uma espaguete com cogumelos frescos ao molho de nata sem pestanejar.

Massa com cogumelos frescos ao molho de nata

Existem muitos tipos de manjericão. Os mais fáceis de encontrar por aqui, já em mudas são o manjericão roxo, o alfavaca, o miúdo e o manjericão comum que é o único que sobrevive o ano todo. Os outros, principalmente o alfavaca, não suportam o frio. Não adianta plantar antes do inverno. Eles minguam e morrem. Já encontrei outras variedades como o manjericão toscano em sementes e produziu muito bem. Vale a busca. E se for viajar para a Itália, aí sim, procure as variedades típicas daquele país.

Manjericão toscano

Mas a coisa mais interessante pra mim na produção do molho pesto, é o fato de poder colher o ingrediente principal na própria horta. E não precisa muito espaço não. Eu me encanto desde a hora em que escolho e compro as mudas. Quem planta e cuida lá em casa é minha empregada e apaixonada pela terra, a Neusinha. Ela costuma dizer que a terra é o melhor antidepressivo que existe. Que se as pessoas lidassem mais na terra, muitos psicólogos iriam ficar desempregados. Sou privilegiada por ter um espaço para a horta e uma pessoa que cultiva pra mim, mas você pode ter chás e temperos em casa mesmo em espaços reduzidos, desde que que peguem luz solar e sejam regados de vez em quando. Fica até mais fácil controlar as pragas e ervas daninhas. E você não suja os pés pra ir nos canteiros.

Dica de horta dentro de casa

Um ambiente controlado vai proporcionar uma planta mais limpa, mais protegida. Ah, não se esqueça de dar muito amor à elas. E converse com suas plantinhas. Toda energia boa traz um bom resultado. Você vai sentir quando preparar o seu molho pesto. Pode ter certeza.

 

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